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Falando com Pós Graduandos
 
O QUE VOCÊ ACHA QUE A PÓS-GRADUAÇÃO
LHE TROUXE DE BENEFÍCIO?
Quando faço um balanço da experiência vivida na pós-graduação, fica no ar a pergunta: Valeu a pena? Sim, valeu! Com reservas... Mesmo diante da crise que nosso país vive, que se manifesta em deficiente apoio à pesquisa e ao ensino público, e do inquietante padrão de colocação do jovem pesquisador no mercado de trabalho, há elementos indeléveis que nos levaram um dia a optar pela atividade científica e, até hoje, norteiam nossos passos.
Acredito que minha geração viveu um turbilhão de mudanças na Universidade, que influenciaram minha formação e foram responsáveis por minha opção pela pós-graduação. Desde minha iniciação científica, no início da década de 90, fomentada pela FAPESP “de outrora”, fui testemunha de uma grande remodelação nos campos da pesquisa, da extensão universitária e do ensino.


Nelson Gnoatto

Doutorando em
Periodontia pela FOUSP
Mestre em Periodontia
pela FOUSP
Professor do Curso de Especialização em Periodontia da APCD SCS
Especialista em
Prótese Dentária pela FOUSP

Essa dinâmica “mutação” da Universidade vem sendo muito positiva para a nova geração de pós-graduandos, pois representa uma libertação de alguns paradigmas que nos estagnavam.
E, onde há intensa modificação, há a oportunidade de participação coletiva no processo.
A FAPESP de hoje, em consonância com as entidades de fomento federais, mostra uma tendência de mudança na sistemática da pós-graduação, valorizando programas de doutoramento direto e projetos de pesquisa temáticos e multicêntricos.
Até recentemente, estes aspectos eram pouco comuns nas Universidades, e os programas de Mestrado eram preponderantes e emblemáticos do processo de pós-graduação stricto sensu.
Para minha geração, vivenciar essa transição tem sido favorável, uma vez que pude agregar elementos das diferentes fases da Universidade. Fiz um curso de mestrado em uma área clínica, que conservou uma programática de peso no aprimoramento prático e da pesquisa clínica (810 horas, do total de 2190 horas). Este programa, que a meu ver é fundamental e indissociável de um mestrado na área clínica, viabilizou o progresso de linhas de pesquisa da Disciplina e me permitiu levar essa bagagem a outros centros, como a Divisão de Odontologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina – USP e a Fundação Pró-Sangue – Hemocentro de São Paulo, que ofereceram cooperação com o projeto de pesquisa clínico-laboratorial que conduzi.
E, ao fazer uma análise da atual mudança no panorama dos cursos de pós-graduação no país, sempre defendo que é importante saber articulá-la com as finalidades da pesquisa científica e com o componente comunitário – certamente o que mais me marcou em minha formação clínica.
A formação sólida no campo da docência (e da formação de opinião) só foi possível graças à tradição que os cursos de pós-graduação em Odontologia cultivaram na Universidade em que sempre estudei, e em cujos exemplos me espelho até hoje.
A relação professor-aluno bem conduzida serviu-me de modelo de conduta no meio acadêmico e na vida. Minha relação com os pacientes cristalizou-se de grandes lições de vida que pude ter com a casuística de transplantados renais e hepáticos do Hospital das Clínicas da FMUSP, em meu mestrado e, atualmente, no doutoramento.
Não há dúvida de que o desenvolvimento tecnológico que estamos vivendo nos lança a modificações de grande impacto na Universidade, delineadas, em parte, por tendências e ideais externos à sua comunidade. Projetos como o FAPESP-Genoma têm dado destaque à pesquisa nacional, e despertado incentivos estrangeiros a essa causa. Não obstante, nem sempre tais modificações se encontram, de imediato, inseridas no papel de integração da Universidade com os problemas sociais.
Um exemplo positivo de que é possível vencer essa dificuldade vem sendo dado pelo governo brasileiro às potências mundiais e à sua indústria, no tratamento coletivo da AIDS.
É possível articular uma meta de ideal comunitário e modificar, ainda mais, a sistemática de pesquisa e pós-graduação na área da Saúde. O brasileiro tem reconhecida criatividade para conseguir um equilíbrio com as demandas e pressões externas a suas metas. A pós-graduação, a meu ver, pôde dar à minha geração oportunidade de vivenciar esse novo delineamento do fomento à pesquisa, e com ele interagir. No entanto, é nosso direito e dever manter o papel social da Universidade, uma vez que estamos, provavelmente, na fase mais atuante de nossas vidas, e plenamente identificados com os problemas atuais.
No nosso ambiente e contexto, em que desenvolvemos projetos atrelados a recursos nem sempre suficientes, a criatividade de que dispomos pode ser bem aproveitada na pesquisa, no ensino e na extensão universitária. É necessário que cada um faça a sua parte e a faça soar em seu meio... e construiremos um mundo melhor.
Vale a pena!

 
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