| Diferença
mínima |
Poucos
genes podem ser responsáveis pela agressividade de alguns
tipos de câncer
O paradoxo era perturbador. Dois tumores derivados de tecidos
conectivos do cérebro tinham graus de agressividade diametralmente
opostos - um era quase benigno, de crescimento lento e restrito,
e outro muito invasivo, de rápida e generalizada expansão.
Mas o padrão de expressão (atuação)
de seus genes em vez de ser bastante distinto, como se poderia
inicialmente pensar, era extremamente parecido.
O dado podia ser um indício de que a capacidade de se
espalhar por tecidos sadios, tão marcante nas formas
mais malignas de câncer, estava ligada ao funcionamento
de um número reduzido de genes. Para experimentar tal
hipótese, pesquisadores do programa Genoma Clínico
do Câncer, financiado pela FAPESP e Instituto Ludwig de
Pesquisa sobre o Câncer, testaram aproximadamente 20 mil
genes humanos, sendo que dois terços do total da espécie
reagiam ao entrar em contato com os dois tipos de tumor.
O comportamento desse conjunto de genes, que se encontrava depositado
numa lâmina especial de vidro, chamada tecnicamente microarray,
foi monitorado em nove comparações distintas entre
os dois tipos de tumores. Os resultados do experimento - levado
a cabo num laboratório do Instituto de Ensino e Pesquisa
Albert Einstein, ligado ao Hospital Albert Einstein, de São
Paulo, que recentemente se associou ao Genoma Clínico,
lançando mão de recursos próprios - reforçaram
a suspeita inicial dos cientistas. Somente 110 genes funcionaram
de maneira significativamente diferente nos dois tumores: 45
foram mais expressos nos astrocitomas de grau I, o tipo mais
brando de câncer, e 65 nos gliobastomas (astrocitomas
de grau IV), a forma mais devastadora do tumor.
Curiosamente, 27% dos genes mais ativos nos tumores mais graves
estão intimamente relacionados à capacidade de
as células se reproduzirem, um mecanismo imprescindível
para a disseminação da doença. "Precisamos
agora confirmar esses dados com o emprego de outras metodologias",
diz Marco Antonio Zago, da Faculdade de Medicina de Ribeirão
Preto da Universidade de São Paulo, coordenador do Genona
Clínico do Câncer. "E distinguir em quais
genes a sua maior expressão é causa, e não
conseqüência, da grande invasividade dos gliobastomas."
Nove tipos de tumores
As análises de expressão de genes feitas em tumores
de cérebro fazem parte de um estudo-piloto do Genoma
Clínico. Seu objetivo central era testar as metodologias
queserão empregadas ao longo do programa. Por isso, apenas
três dos nove tipos de tumores que serão enfocados
pelo Genoma Clínico foram alvo desses trabalhos iniciais,
realizados por uma rede de cinco laboratórios de biologia
molecular, com o apoio de dois centros de bioinformática.
Além de trabalhar com amostras de tumores de cérebro,
o estudo-piloto mediu o funcionamento de grupos de genes em
células com câncer (e sadias) retiradas da laringe
e do cólon. "Mas, por enquanto, só temos
resultados expressivos com tumores de cérebro",
afirma Zago.
Iniciado há dois anos, o Genoma Clínico trabalha
com amostras de tumores que se formam em nove diferentes órgãos
ou tecidos do corpo humano: estômago, esôfago, osso
e medula óssea, além de cérebro, cabeça/pescoço
e cólon/reto. Com orçamento estimado em US$ 1
milhão, bancado em porcentagens iguais pela FAPESP e
Instituto Ludwig, o programa pesquisa se diferenças significativas
no funcionamento de um gene, ou de um conjunto de genes, em
células com câncer e em seus respectivos tecidos
sadios podem fornecer informações úteis
para o diagnóstico ou tratamento da doença. "Queremos
investigar se essas mudanças de expressão se correlacionam
com parâmetros clínicos dos doentes, como sobrevida,
resposta a tratamentos e propensão para metástases
(expansão do tumor para outros tecidos)", explica
Zago.
Não que a meta do programa seja desenvolver dispendiosos
exames genéticos para serem aplicados diretamente nos
pacientes com câncer e, assim, prever a evolução
da doença ou orientar a melhor forma de tratamento. O
objetivo é relacionar o comportamento dos genes nos tecidos
tumorais com alterações em parâmetros fisiológico
dos doentes, como a produção de proteínas
e antígenos (substâncias reconhecidas como potencialmente
agressivas pelo sistema imunológico). A vantagem dessa
abordagem é que testes simples e baratos poderiam ser
usados para detectar essas alterações fisiológicas.
Em países como o Brasil, de nada adiantaria desenvolver
procedimentos muito caros e complexos, que dificilmente entrariam
na rotina clínica dos hospitais públicos. Além
disso, essas proteínas e antígenos são
potenciais alvos para desenvolvimento de novas terapias. A forma
como o Genoma Clínico estuda o comportamento do genes
dos tumores é inovadora na medida em que reúne
um variado time de especialistas e instituições
para perseguir seus objetivos.
Apesar do nome que remete à área de genética,
o programa não é tocado apenas por biológos
moleculares. A maioria dos seus participantes são clínicos,
cirurgiões, epidemiologistas e patologistas, que travam
contato cotidiano com pacientes de câncer. Esses médicos
pertencem a 19 grupos de pesquisa clínica de hospitais
e universidades paulistas. Seu papel é de fundamental
importância para a montagem de uma estrutura de dados
primários que serão usados ao longo de todo o
programa em uma série de estudos.
Essa estrutura se assenta em dois pilares: amostras de boa qualidade
dos nove tipos de tumores (e de seus respectivos tecidos sadios)
e um detalhado perfil epidemiológico dos pacientes e
pessoas saudáveis que forneceram esses tecidos. |
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