Ao empossar, no dia 11 de
setembro, o novo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia,
em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva classificou-o de "clube do Bolinha", por ter
uma única mulher - Wrana Maria Panizzi, reitora da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - entre os seus
24 integrantes.
"Não foi citado o nome de uma mulher, que é
uma coisa que nós vamos ter que reparar daqui para
a frente. A não ser que alguém prove que não
tem mulher cientista", disse o presidente.
Na verdade, elas existem e até são em maior
número na maioria das áreas do conhecimento.
Mas, como entraram só mais recentemente nesse universo,
são minoria entre os pesquisadores mais titulados e,
portanto, recebem menos recursos para bolsas e auxílios
que exigem maior experiência e títulos. E são
quase invisíveis em cargos de direção
de centros e institutos de pesquisa ou de gestão de
política científica e tecnológica. A
Academia Brasileira de Ciências, por exemplo, tem cerca
de 10% de mulheres em seus quadros. Pouco, mas mais que nos
Estados Unidos, onde a presença feminina está
em torno de 7,5%.
Em 1965, a revista Science publicou um artigo que se tornou
um marco, por ser aparentemente o primeiro sobre o assunto:
Mulheres na ciência: por que tão poucas?"
E dava as respostas: incompatibilidade da carreira com a maternidade
e o casamento, habilidade intelectual, falta de independência
da mulher, falta de persistência no trabalho, maior
envolvimento com atividades sociais que acadêmicas e
influências familiares.
De lá para cá, muita coisa mudou. Outras, nem
tanto. No Brasil, por exemplo, na segunda metade da década
de 90, as mulheres se tornaram maioria nos bancos universitários
e entre os formandos participantes do exame nacional de cursos,
conhecido como Provão . Em 1998, elas eram 53,9%; em
2002, 66% dos que fizeram o exame. Mas como isto se reflete
na carreira científica?
As pesquisadoras Hildete Pereira de Melo e Helena Maria Martins
Lastres, respectivamente da Faculdade de Economia da Universidade
Federal Fluminense e do Instituto de Economia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, fizeram um diagnóstico do
assunto. Elas coordenaram a equipe brasileira que, no primeiro
semestre do ano, encaminhou ao Projeto Iberoamericano de Ciência,
Tecnologia e Gênero (GenTeC) o relatório de pesquisa
Brasil - Gênero, Ciência, Tecnologia e Inovação
- Um Olhar Feminino. O Projeto é uma iniciativa da
Unesco e da Organização dos Estados Iberoamericanos
(OEI).
No mês de julho passado, as autoras apresentaram parte
do trabalho na 55ª Reunião Anual da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no simpósio
Educação, Ciência e Tecnologia e a Inclusão
Feminina. Na mesma reunião, outros quatro simpósios
trataram do tema.
O trabalho das pesquisadoras, apresentado como duas contribuições
- O sistema científico brasileiro numa perspectiva
de gênero: o caso do CNPq e Educar para Incluir: numa
perspectiva de gênero - procurou traçar um quadro
dessa inserção feminina no sistema de pesquisa
nacional, "partindo da hipótese que, a despeito
do crescimento expressivo do número de mulheres com
formação universitária no Brasil, a participação
feminina na produção do conhecimento ainda está
aquém da presença feminina na universidade".
Elas começaram analisando a presença feminina
na universidade. "As mulheres entraram no século
20 analfabetas e terminaram o século com escolaridade
maior que a dos homens", observa Hildete de Melo. Em
2001, segundo ela, 52% das pessoas com diploma superior no
Brasil eram mulheres. Em 2002, entre os estudantes presentes
ao Provão, as mulheres eram 94,5% dos formandos em
Pedagogia, 89,2% em Psicologia, 89,1% em Enfermagem, 86,7%
em Letras e 73,8% dos formandos em Biologia, carreiras tradicionalmente
classificadas como femininas. Em contrapartida, nas profissões
tradicionalmente tidas como masculinas - Engenharias Mecânica,
Elétrica e Civil, Física e Agronomia - a participação
feminina era, respectivamente, de 4,5%, 10,4%, 25,3%, 27,5%
e 29,2% dos formandos. Entretanto, as mulheres foram ocupando,
de forma gradativa, novas áreas. Entre os formandos
dos cursos de Matemática, Odontologia e Jornalismo
já há predominância feminina; e há
um certo equilíbrio de gênero entre os formandos
dos cursos de Administração, Direito, Medicina
Veterinária, Engenharia Química, Química
e Medicina.
Mas, e a carreira científica? A partir do banco de
dados do CNPq (Diretório de Pesquisa 4.0), Hildete
de Melo e Helena Lastres levantaram as concessões de
bolsas nas modalidades iniciação científica,
mestrado (no país e no exterior) doutorado (no país,
no exterior e bolsa-sanduíche) e de pesquisa (pós-doutorado
e produtividade), esta última direcionada especificamente
para pesquisadores. Constataram que, desde 1995, as mulheres
são maioria nas concessões de bolsas de iniciação
científica (52,8% contra 47,2% das concessões
a homens) e, desde 1998, nas de mestrado (52,1% contra 47,9%).
Entretanto, a situação se inverte nas bolsas
de doutorado e de pesquisa: não só o número
de concessões é maior para os homens como esta
realidade se mantém ao longo da década praticamente
inalterada. No caso das bolsas de pesquisa, que exigem maior
titulação, a disparidade fica em torno de 69,5%
de concessões dadas aos homens contra 30,5% de bolsas
dadas às mulheres, ao longo de todo o período.
Mas as autoras fizeram uma leitura mais aprofundada das bolsas
de produtividade, o nível mais alto, e que são
classificadas pelo CNPq em nove categorias, segundo a titulação
e a produção científica do pesquisador:
1A, 1B, 1C, 2A, 2B, 2C, 3A, 3B e 3C, sendo o nível
1A o dos pesquisadores com maior titulação e
o nível 3 o dos pesquisadores emergentes, com pesquisas
próprias ou ainda associados a projetos coordenados
por pesquisadores mais experientes. No nível 1A, a
concessão de bolsas às mulheres passou de 18,5%
em 1990 para 21,1% em 1999. Nos demais níveis, no mesmo
período, a expansão foi maior: de 18,9% para
24,7% no nível 1B; de 24% para 28,6% no nível
1C; e de 30,2% para 36,5% no nível 2B. Em todos esses
níveis a curva de concessão se manteve inalterada
no período. As bolsas destinadas ao nível 3,
contudo, tiveram queda geral de recursos e de concessões
ao longo da década. E, aí, as mulheres foram
as maiores prejudicadas. No caso das bolsas para o nível
3A, a participação feminina caiu de 41,6% em
1990 para 28,6% em 1999; no nível 3B, caiu de 42,3%
para 33,3%; e no nível 3C, de 45,5% para 44%
"A menor presença feminina nas bolsas de pesquisa
do CNPq pode ser explicada pela inserção tardia
das mulheres no sistema de ciência e tecnologia",
diz Hildete de Melo. Mas ela acrescenta que isto não
justifica tudo: permanece a dificuldade das mulheres em conciliar
a carreira científica com a vida familiar. "É
difícil conciliar a produção científica
com a gestação e a maternidade. Isto pode ser
constatado observando-se dados que mostram que essas mulheres
têm uma maternidade tardia ou optam por não ter
filhos", diz Hildete. Ela cita dados colhidos na Pesquisa
Nacional de Amostragem Domiciliar (PNAD) do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) em 2001: 46,2% da
população ocupada feminina com 3º grau
não têm filhos. Por faixa etária, 57,3%
das mulheres com até 35 anos de idade não têm
filhos.
Essa dificuldade de conciliar a vida familiar com a produção
científica talvez seja a responsável por uma
afirmação tomada como verdade, a de que as mulheres
cientistas produzem menos que os homens. A bioquímica
Jacqueline Leta, pesquisadora do Instituto de Ciências
Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) publicou este ano, na revista européia Scientometrics,
um estudo em colaboração com Grant Lewison,
da City University, de Londres, Inglaterra, intitulado A contribuição
das mulheres na ciência brasileira: um estudo de caso
em astronomia, imunologia e oceanografia.
O objetivo do estudo era verificar se a produção
científica das pesquisadoras brasileiras, nessas três
áreas de conhecimento, diferia, em quantidade e qualidade,
da produção científica dos pesquisadores
homens. Ela também tomou como base de dados o Diretório
de Pesquisa do CNPq, procurando identificar o total de doutores
em cada uma das áreas e a proporção de
mulheres. Os dados foram cruzados com artigos publicados em
publicações indexadas no Web of Science. O resultado
obtido foi que a proporção de artigos de mulheres
e de homens segue a proporção da presença
delas na área, isto é, elas produzem de acordo
com o que elas representam no total de pesquisadores. Do ponto
de vista de impacto também não houve diferença.
"Isto contraria boa parte da literatura mundial, que
diz que a mulher produz menos; ela produz menos porque ocupa
um espaço menor nas atividades de pesquisa", diz
Jacqueline Leta.
O fato de as mulheres serem maioria nas universidades e nas
bolsas de iniciação científica e de mestrado
pode levar a supor que no futuro a participação
feminina na carreira científica em todos os níveis
será alterada", diz Hildete de Melo. "Mas
não dá para ficar esperando de braços
cruzados", acrescenta. A observação do
presidente da República veio dar um pequeno empurrão
nesse processo. Agência FAPESP