Análise
Crítica da Pesquisa Nacional
O
A tese central dessa apresentação é
a de que no Brasil atingimos uma grande quantidade de
pesquisas sendo realizadas na área de Odontologia.
O desafio agora é traduzir esse volume em qualidade.
Quem acompanha a SBPqO desde sua concepção,
nos históricos encontros de Pirassununga, certamente
concordará comigo, pelo menos na primeira parte
da minha assertiva. Aqueles encontros, um pouco mais do
que uma ação entre amigos, representavam
um renascimento da pesquisa odontológica. Como
sempre, nesses casos, o nascimento se dá a partir
da superação de um modelo de prática
científica hegemônico, porém, exaurido
na sua possibilidade de propor alternativas para a sociedade.
Estávamos abandonando um modelo centralizador pela
superação das cátedras que, paradoxalmente,
se deu em pleno regime militar. A reforma universitária
pode até ter sido um esquema da ditadura para desarticular
lideranças universitárias críticas
aos rumos que o país tomava. Passados todos esses
anos percebe-se que, ao se abolir o esquema centralizador,
representado pelo catedrático todo poderoso, estava-se
abrindo as portas para um grupo cada vez maior de jovens
cientistas, profissionais de todas as áreas, que
estavam redefinindo a pesquisa no país.
O número de universidades se multiplicou. As Faculdades
de Odontologia duplicaram e a profissão, antes
uma sólida carreira liberal, modificou-se, proletarizou-se.
Com isso, formar-se, abrir um consultório e ficar,
senão rico, muito bem de vida virou pó da
História. Para os saudosistas do passado isso pode
ser uma tragédia, um assalto à dignidade
da profissão etc, etc do discurso hipócrita
de tantos representantes da profissão.
Para a sociedade essa extensão do número
de médicos, dentistas, enfermeiros, farmacêuticos,
só para ficar em alguns profissionais da área
da saúde, tem representado melhores condições
de vida, mais saúde, mais dentes e sorrisos cheirosos
ao alcance de um número cada vez maior de cidadãos.
Para a Pesquisa não poderia ter acontecido nada
melhor. Ser Docente, ser Pesquisador deixou de ser um
ato de doação ao serviço público
daqueles que faziam de suas clínicas particulares
o altar de suas vidas. A docência e a pesquisa se
profissionalizaram e uma nova carreira, a de professor
pesquisador, se abriu na perspectiva de um número
cada vez maior de jovens. Que diferença entre os
idos de 1974 quando eu me formei e o meu pai, dentista,
queria me deserdar por que eu decidira fazer uma pós-graduação
primeiro em Microbiologia e depois em Periodontia e, ainda
por cima, na Noruega!!! Atualmente os melhores alunos
são dedicados bolsistas de Iniciação
Científica e, antes mesmo de terminarem seus cursos,
já estabeleceram vínculos com centros nacionais
e estrangeiros, seja através da SBPqO/IADR seja
através da Internet. Freqüentemente esses
alunos projetam suas carreiras integralmente na docência
e na pesquisa. A formação profissional na
pós-graduação obedece à uma
renhida concorrência onde vagas, em centros de excelência,
são disputadas em nível de dificuldade tão
grande ou maior do que o de vestibulares.
A atividade de pesquisa ainda é um pingo de água
no mar de oportunidades que o mercado apresenta. A ampliação
da mesma depende de destinações orçamentárias
sujeitas a cortes ainda comandados por políticas
equivocadas. É sabido que o Brasil, nesse aspecto,
fica longe de seus concorrentes internacionais. Tome-se
como exemplo a Coréia do Sul que investe mais em
pesquisa que o Brasil, tem maior produção
científica e, como conseqüência, tem
um número superior de patentes internacionais.
O Brasil precisa de uma política de pesquisa condizente
com a sua realidade. As mudanças na sociedade,
o maior interesse de jovens profissionais pela docência
e pesquisa, o aumento no número de pessoas envolvidas
com pesquisa certamente é resultante do investimento
que se faz nessa área. Portanto, parece que antecipar
uma ampliação nos investimentos fundamentados
no grande número de pesquisas e pesquisadores existentes
é um argumento tautológico. Novos investimentos
e a ampliação das fontes existentes somente
virão se a pesquisa superar, novamente, seu modelo
expansionista, em busca de maior qualidade. Nesse momento,
é muito importante que se qualifique os termos.
Qualidade em pesquisa está assentada em três
eixos. O primeiro é o eixo tecnológico e
técnico. O segundo é o eixo ético
e o terceiro é a identificação dos
interesses da pesquisa com os interesses da maioria da
população.
O Brasil precisa olhar para o seu próprio umbigo
na busca de respostas científicas. Nossa diversidade
é a nossa riqueza e nela está a solução
para os nossos problemas. A pesquisa no Brasil, portanto,
precisa responder às suas próprias perguntas.
Isso não é uma confissão xenofóbica.
Muito pelo contrário, no pesquisar devemos procurar
dispor de todo o arsenal tecnológico e técnico
disponível. Os objetivos da pesquisa, porém,
não devem fugir ao limiar dos nossos próprios
interesses. Um exemplo bem ilustrativo dessa questão
é a colaboração que a USP dá
ao projeto genoma, despontando internacionalmente como
um dos principais centros de pesquisa genética,
ao mesmo tempo em que trabalha no mapeamento genético
da ferrugem da laranja, de grande interesse econômico.
No nosso meio desponta a concepção de uma
Odontologia baseada na evidência em consonância
com a área médica como um todo. Fazer uma
pesquisa metodologicamente correta, com objetivos claros,
metodologia coerente e avaliação dos resultados
adequada é uma fórmula muito antiga. Porém,
deve-se reconhecer que, atualmente, os meios e instrumentos
para esse fim são muito mais exigentes que no passado,
pela justa razão de que, atualmente, dispomos de
melhores recursos que no passado. Pense-se na estatística
e no quanto ela evoluiu a partir do computador. De testes
t realizados em velhas HPs. Pode-se hoje projetar análises
de regressão logística multivariadas cujos
cálculos seriam impensáveis nas antigas
calculadoras. Pense-se nos desenhos experimentais de pesquisas
nas áreas de epidemiologia e como tornaram-se complexos
os problemas que se devem pesquisar, por exemplo, atualmente,
não basta quantificar cárie na população.
Também é possível e necessário
se determinar fatores e indicadores de risco, projetar
formas de diagnóstico adequadas e planejar ensaios
clínicos representativos.
Em um mundo aberto através das portas da Internet,
a figura do pesquisador sozinho, isolado, tipo gênio
pensando, é uma figura patética. Deve-se
compreender que a pesquisa colaborativa, interdisciplinar
e multicentro é aquela que produz mais e melhores
resultados. Centros mais desenvolvidos e menos desenvolvidos
devem buscar juntar suas aptidões naturais em uma
complementaridade que a rapidez e facilidade da comunicação
permitem. A superação do individualismo
por um sentido de equipe de trabalho é fundamental
para a pesquisa.
Finalmente o eixo ético. É preciso reconhecer
que a questão ética é inerente à
atividade de pesquisa, aliás ela é intrínseca
ao ser humano. O renovado interesse na discussão
da ética e, para alguns da bioética, que
permeia nossa formação atual, não
pode ser vista como uma causa, mas sim como uma conseqüência.
A sociedade tem colocado um olhar crítico ao modelo
científico hegemônico. Do endeusamento da
ciência, tão característico da metade
final do século 20, restou a sensação
da resposta não atendida, da obediência servil
aos interesses do capital, da perda do sentido humanista
para a ciência. A sociedade como um todo cansou-se
do excessivo materialismo da ciência ao mesmo tempo
em que humanizou-se reconhecendo o direito tanto de minorias
como o e de maiorias oprimidas. A ecologia e a tomada
de consciência de que vivemos todos em um pequeno
tubo de ensaio inserido no Universo determinou uma revisão
nos objetivos e nos métodos da Ciência superando
o modelo positivista. Kapra foi muito feliz ao assinalar
no seu livro, O Tao da Física, o significado, por
exemplo, da física quântica no modelo científico
que se impõe.
Propostas qualitativas no terreno da fenomenologia despontam
como modelos alternativos de busca da compreensão
daquilo que nos cerca. A questão ética ressurge
dentro dessa perspectiva. Conforme assinala Kuhn, quando
das mudanças paradigmáticas na ciência
é freqüente que o modelo a ser superado seja
questionado, não só metodologicamente, mas
também no terreno da ética. De fato, os
novos modelos científicos que se impõe nos
parecem não só mais eficientes como também
mais éticos e, impressionantemente, mais adequados
à nossa realidade.
Ao reler o que escrevi me dou conta que deixei muitas
pontas soltas em linhas de pensamento não totalmente
desenvolvidas. Deliberadamente ou não, essas pontas
abertas servem para lembrar que esse é um assunto
apaixonante e certamente merece ser aprofundado e aprimorado.
Não conheço um ambiente mais propício
para tal fim do que o da SBPqO. Por isso mesmo aproveitei
a oportunidade que me foi dada, a qual agradeço,
de sentar por um tempo e refletir sobre essas coisas que,
sem percebermos, são determinantes do meu dia a
dia de professor, pesquisador e orientador.
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Prof.
Dr. Rui Vicente Opperman
Formação Profissional
- Cirurgião-Dentista pela Faculdade de Odontologia
UFRGS, Brasil
- Especialista em Odontopediatria pela Universidade
de Oslo, Noruega
- Doutor em Odontologia pela Universidade de Oslo,
Noruega
- CRO 3948
Ocupação Profissional
Professor Titular de Periodontia da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Professor Titular de Periodontia da Universidade
Luterana do Brasil (ULBRA)
Coordenador do Pós-Graduação
em Periodontia (Mestrado) da ULBRA
Coordenador da Pós-Graduação
em Periodontia (Especialização e Mestrado)
da UFRGS
Ex-Presidente da ABOPREV
Presidente Congresso SOBRAPE - 2001
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