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PATENTE, O GRANDE ACHADO DAS UNIVERSIDADES |
De
O Estado de SP          
20. 01.2003 - 11:35:31
Após
quase 20 anos de pesquisa sobre um novo marcador genético
da hipertensão, a bióloga Dulce Casarini
estava preparada para qualquer tipo de questionamento
científico. Quando apresentou seu trabalho em
um conferência em Oxford, em 1999, no entanto,
foi pega de surpresa por uma pergunta das mais simples:
"Você já patenteou sua descoberta?",
indagou um pesquisador.
Dulce olhou para seu marido na platéia, que sinalizou
com a cabeça - um tanto desesperado - para que
ela respondesse sim. Ela atendeu ao comando e blefou.
"Nunca tinha pensado em patente até aquele
momento", admite a cientista, professora de nefrologia
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
"O pesquisador só pensa com a barriga na
bancada, não está preocupado com patenteamento."
Essa era a realidade predominante no meio acadêmico
até recentemente. O pesquisador, tradicionalmente,
sempre foi valorizado pelo número de artigos
científicos publicados, não pela produção
de patentes. Quando não era totalmente ignorada,
como no caso de Dulce, a patente - ou seja, a proteção
intelectual de uma descoberta - era vista com maus olhos
pela maioria.
Afinal, se a ciência é financiada com dinheiro
público, seus resultados também devem
ser públicos, para o benefício da sociedade.
"Havia um medo de que a patente passasse a ser
valorizada mais do que a publicação, o
que não é verdade", diz a advogada
Cristina Assimakopoulos, do Núcleo de Propriedade
Intelectual da Unifesp. "O valor científico
é o mesmo."
Novo rumo
Uma nova percepção ganhou força
principalmente a partir de 1997, com a publicação
da Lei de Patentes. Das 156 universidades do País
27 já possuem um núcleo de apoio jurídico
e incentivo às patentes, segundo levantamento
do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi).
Os mais antigos, e mais produtivos, são o da
Unicamp, fundado em 1984, e o da Universidade de São
Paulo (USP), em 1987.
A Unifesp, que criou seu núcleo em 2000, registrou
cinco patentes nos últimos dois meses. Nos últimos
70 anos da universidade foram apenas oito. "Entre
1998 e 2000 tivemos 32 mil publicações,
e nenhuma patente", compara Cristina. Futuros royalties
serão dividos entre a Unifesp (60%), o pesquisador
(30%) e seu departamento (10%).
O que as universidades tentam mostrar hoje, com relativo
sucesso, é que é possível conciliar
conhecimento público e riqueza. Não se
trata de ganância, pois o conhecimento que é
publicado pode ser aproveitado pelas empresas de qualquer
maneira. A diferença é que, com a patente,
no caso de esse conhecimento ser usado na fabricação
de algum produto - como um novo medicamento -, parte
dos benefícios retorna para a universidade e
para os pesquisadores na forma de royalties. A orientação
para os cientistas é patentear antes, publicar
depois. Assim, quando o conhecimento se tornar público,
já estará com sua propriedade intelectual
protegida.
Garantias
Dulce gostaria de ter pensado nisso antes. Em 1992,
ela publicou uma pesquisa sobre um novo método
de medição da adrenalina no sangue e o
conhecimento foi usado por empresas para desenvolver
um teste, lançado no mercado seis anos depois.
Como Dulce não patenteou a descoberta, nunca
recebeu nada por isso.
Agora, com a enzima marcadora de hipertensão,
está tomando as devidas precauções.
Ela tem dez artigos científicos guardados sobre
a pesquisa, que só agora serão submetidos
à publicação. O pedido de patente
foi depositado no Inpi em dezembro, incluindo dois métodos
de detecção da enzima na urina e outras
técnicas de diagnóstico.
Várias empresas já procuraram a pesquisadora
para licenciar a tecnologia. Os royalties serão
divididos da seguinte maneira: um terço para
a Fundação de Amparo à Pesquisa
no Estado de São Paulo (Fapesp), que financiou
a pesquisa, um terço para a Unifesp e um terço
para a equipe da pesquisadora.
Para garantir que sua descoberta trará benefícios
à sociedade e ao País, Dulce coloca como
item obrigatório no contrato a realização
de mutirões gratuitos para fazer um rastreamento
da hipertensão no Brasil. "Temos de colocar
essa tecnologia no mercado. Só agora percebo
como isso é importante."
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
segue um caminho semelhante ao da Unifesp. Desde a criação
do Escritório de Interação e Transferência
de Tecnologia, em 1998, pesquisadores da instituição
já depositaram 25 pedidos de patentes no Inpi
e 3 no exterior. A primeira carta patente, nos cerca
de 70 anos da universidade, foi obtida em setembro,
para um processo de clareamento de manchas em grãos
e sementes. A tecnologia já estava licenciada
desde janeiro para uma empresa da agroindústria.
FONTE
- O ESTADO DE SÃO PAULO 20/01/2003
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