| Entrevistas |
Fiel às origens
26/01/2004 19:39
Por Thiago Romero
Agência FAPESP - A sucessão de novos desafios,
ainda que urgentes, não permitem que a história
da Universidade de São Paulo seja esquecida. Em entrevista
à Agência FAPESP, o reitor Adolpho José
Melfi conta que a USP sempre se manteve fiel às suas
origens e garante que a criação do novo campus
na Zona Leste vai seguir a mesma filosofia que orientou, em
1934, a criação da maior instituição
pública de ensino superior do país. Questões
como exclusão social, evasão, regime de cotas
e o sempre complicado financiamento para a universidade pública
também são abordados por Melfi, cuja gestão
termina em 2005. Para o reitor, o simples fato de existir uma
USP, nos dias de hoje, já é um grande motivo de
orgulho e alegria. Formado em geologia pela Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da USP, em 1960, Melfi dirigiu por duas
vezes o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências
Atmosféricas entre os anos 70 e 80. Foi também
pró-reitor de pós-graduação de 1994
a 1998 e vice-reitor de 1998 a 2001, quando passou a ocupar
o cargo de reitor.
Agência FAPESP - Setenta anos depois, como o sr.
avalia a importância hoje da Universidade de São
Paulo?
Melfi - A USP é hoje, sem sombra de dúvida,
o maior centro de pesquisa e de pós-graduação
da América Latina. A instituição é
responsável por mais de 25% de toda a produção
científica nacional, que vem crescendo e ocupando lugar
de destaque no âmbito internacional. De cada 250 descobertas
importantes realizadas no mundo, uma é efetuada aqui.
Do ponto de vista da formação, na graduação
temos cursos que ocupam lugar de destaque em rankings, oficiais
e não oficiais. Na pós-graduação,
somos um importante centro de formação de doutores.
Formamos profissionais que vão trabalhar e alavancar
todo o sistema universitário brasileiro e também
formar os quadros para o desenvolvimento de pesquisas em institutos
e indústrias. Tudo isto teve e tem uma importância
muito grande para o desenvolvimento do Brasil.
Agência FAPESP - Quais são as principais
dificuldades enfrentadas atualmente pela USP?
Melfi - Nós até deveriamos ficar contentes
por estar enfrentando algumas dificuldades. Por exemplo, a questão
orçamentária. Quanto mais dinheiro temos, mais
projetos vamos querer fazer. Desse modo, sempre vai faltar recursos.
Outro aspecto importante a ser salientado é que os recursos
chegam religiosamente. Ou seja, o fato de o governo respeitar
nossa autonomia e realizar os repasses de nosso orçamento
nos dá uma certa tranqüilidade do ponto de vista
administrativo. É evidente que temos alguns desafios
preocupantes pela frente. Por exemplo, a expansão da
universidade é um problema, ainda que seja uma preocupação
cujo principal ponto é agradável, pois estamos
vendo que o país está crescendo e que estamos
universalizando o ensino fundamental.
Agência FAPESP - Qual o principal projeto para
2004?
Melfi - O ponto alto será a implantação
do campus na Zona Leste, que vai dar uma nova vida à
USP. Estamos recriando, depois de 70 anos, um novo campus dentro
da filosofia que norteou a criação da própria
universidade.
Agência FAPESP - Quais serão os focos de
atuação do novo campus?
Melfi - Queremos atuar em todas as áreas do conhecimento.
Para a fase inicial, por exemplo, haverá a criação
de uma única unidade de ensino, que irá reunir
as áreas de ciência, artes e humanidades. No fundo,
é um modelo igual ao utilizado na criação
da própria USP, em 1934. Naquela época, algumas
disciplinas foram reunidas para a criação da faculdade
de Filosofia, Ciência e Letras. Nos departamentos é
que foram agrupadas as ciências básicas, artes
e humanidades.
Agência FAPESP - A captação de recursos
privados seria uma saída eficiente para o financiamento
das atividades universitárias? E a cobrança de
contribuição de alunos, ela também pode
ser uma solução?
Melfi - São questões polêmicas que
devem ser muito bem debatidas. Universidade pública é
cara. Além das pesquisas, mantemos hospitais e museus.
Isso evidentemente tem que ser financiado pelo governo. A questão
da cobrança das mensalidade, como ocorre nos Estados
Unidos, não é a principal questão, no meu
modo de ver. A universidade tem um papel social muito importante,
ela contribui para o desenvolvimento econômico do país.
É preciso considerar essas relações quando
se afirma que a universidade deixa os pobres de lado e atende
apenas os mais favorecidos. Todo o financiamento deveria vir
do governo. Claro que não existe dúvida que os
recursos extras, do setor privado, são importantes. O
que temos que fazer é definir mecanismos eficientes para
as captações.
Agência FAPESP - Qual a melhor maneira de aprimorar
o nível dos estudantes e evitar a evasão dos alunos?
Melfi - Esta é uma preocupação grande.
Nós tínhamos, há alguns anos, aproximadamente
30% de evasão. Hoje, ela está bem menor, ao redor
dos 23%. Mas é importante analisar corretamente os números,
que muitas vezes são superestimados. Por exemplo, um
aluno que entra num determinado curso, mas que no ano seguinte
presta vestibular novamente e entra em outra carreira, não
poderia ser contabilizado, como ocorre, nas estatísticas
dos que abandonaram o ensino superior. Claro que as evasões
deixam vagas ociosas. A USP, há dois anos, criou um vestibular
no meio do ano para preencher esses lugares. São cerca
de 1,5 mil vagas anuais. Quando se fala em evasão temos
ainda que analisar a questão dos alunos que não
conseguem terminar o curso, seja por motivos financeiros ou
porque não conseguem acompanhar o ritmo das aulas.
Agência FAPESP - Como a questão das cotas
tem sido tratada na USP?
Melfi - Este é um problema que começamos
a analisar em 2003, entre as três universidades públicas
estaduais, com o estudo de políticas afirmativas para
combater a exclusão. Ainda não temos uma posição
definida. Em março deverá haver um debate aprofundado
sobre o tema. A questão está sempre em pauta e
as universidades públicas não podem se omitir.
Todos os aspectos serão discutidos. Precisamos inclusive
debater se o estabelecimento de cotas deveria ser feito por
motivos raciais ou por classes econômicas inferiores.
Na minha opinião, para fazer jus à cota, o aluno
teria que obter uma nota superior à nota de corte no
curso escolhido. Outro ponto importante é que a universidade
também precisa colaborar com a melhoria do ensino médio.
Os vestibulares das universidades públicas são
extremamente democráticos. As provas medem o mérito
e o conhecimento do aluno. O problema, claro, é que os
candidatos não saem de uma escola pública da mesma
forma que em deixam o ensino particular. As condições
de aprendizado são totalmente diferentes. Isso é
uma injustiça que nós devemos trabalhar para mudar.
Agência FAPESP - Qual é o principal mérito
da USP em seus 70 anos de existência?
Melfi - Temos um indicador muito bom, exatamente este
ano. Vamos realizar, em julho, a 12ª Conferência
Internacional de Universidades. São reuniões realizadas
a cada quatro anos, em países diferentes, especialmente
na Europa e nos Estados Unidos. É a primeira vez que
o evento será realizado no Brasil. O fato de uma conferência
desse porte ocorrer no Estado de São Paulo tem muito
a ver com a USP. Apenas aqui existe uma universidade como ela.
Este é um motivo de orgulho e satisfação.
A nossa universidade, em 70 anos de vida, sempre manteve a mesma
filosofia e objetivos do projeto de sua criação
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