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Tema do Mês

Este espaço destina-se a apresentar um assunto de interesse à pesquisa. Documentos exibidos em centros de pesquisa ou entrevistas com professores da área serão exibidos a fim de que possamos abordar aspectos relevantes aos pesquisadores nos mais diversos segmentos da Odontologia.
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FAPESP:
CRITÉRIOS E POLÍTICAS DE
AVALIAÇÃO DE PROJETOS

Prof. Dr. José Merzel

Dentista e Médico
Coordenador da Área de Saúde da FAPESP


No dia 14 de outubro deste ano a Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo teve o prazer de receber a visita do Prof. Dr. José Merzel, convidado pelo Núcleo de Pós-Graduação, o qual ministrou a Palestra: FAPESP: Critérios e Políticas de Avaliação de Projetos.
O referido convidado, cirurgião-dentista e médico, é professor da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da UNICAMP e, há 6 anos, faz parte da Coordenação da Área de Saúde da FAPESP.
A Odontologia representa cerca de 20-25% da demanda dos projetos submetidos à FAPESP na área da Saúde abrangendo os vários programas da Fundação: bolsas, auxílios à pesquisa, reuniões científicas, etc. Nota-se contudo, uma quase ausência da Odontologia na apresentação de projetos temáticos. Esta modalidade de auxílio visa financiar uma linha de pesquisa, com o objetivo fortalecer o grupo de pesquisa, sob uma liderança única ou múltipla, e assim ganhar excelência científica. As vantagens em relação à modalidade tradicional dos auxílios individuais à pesquisa são várias, não só em relação ao orçamento e duração do auxílio, mas também à presteza na análise de pedidos complementares, como por exemplo aditivos, bolsas e viagens. As exigências, porem, também são maiores, a começar pelo mérito – enquanto os pedidos de auxílio à pesquisa são analisados, na maioria dos casos, por um único assessor, os temáticos são submetidos a pelo menos três assessores.
A primeira função da coordenação de área é indicar o assessor ou assessores que avaliarão o mérito científico do projeto. Dependendo do parecer a Coordenação sugere sua aprovação denegação ou submete o projeto à diligência solicitando que o responsável responda ao questionamento do assessor ou assessores.
A política de bolsas de pós graduação da Fundação sofreu profundas modificações a partir de 2001. Aceitas no mérito as bolsas eram concedidas sem maiores limitações. Com a contenção de verbas dos agências de fomento federais, ocorrida nos anos 98 e99, a demanda de bolsas de mestrado e doutorado junto à FAPESP cresceram de maneira significativa, ultrapassando em muito o limite de 30% das verbas destinadas a esta modalidade de auxílio.
Assim, a partir de 2001, o número de bolsas novas, de mestrado e doutorado, a serem concedidas ficou condicionado ao número de bolsas concedidas nos anos anteriores que fossem concluídas no ano corrente. Foi decidido, também, que as bolsas de mestrado só teriam uma única prorrogação de no máximo um ano e no caso de doutorado, alem da duração normal, poderia ser, excepcionalmente, concedida a prorrogação de alguns poucos meses.
Como o número de pedidos tem sido bem maior que o de bolsas disponibilizadas, tornou-se necessário criar critérios para classificar os pedidos em ordem de prioridade. Os critérios na área da Saúde tem sido os seguintes:
• a classificação indicada pelo assessor; dificilmente são aceitos pedidos que não tenham tido a avaliação de “ótimo” ou “muito bom”;
• o currículo do orientador, traduzido pela qualidade de suas publicações científicas;
• o currículo do aluno, que tem sido mais relevante para os candidatos ao doutorado;
• se o projeto da bolsa está vinculado a um projeto de auxílio à pesquisa ou temático financiados pela FAPESP.
 
Os processos de bolsas de mestrado são analisados semestralmente e tem prazo estipulado para sua submissão. As bolsas de doutorado são analisadas mensalmente.
Paralelamente a essa nova sistemática, a FAPESP introduziu a modalidade de bolsa para doutoramento direto. Os critérios para a análise deste tipo de bolsa são os mesmos, mas obedecem um rigor maior , especialmente em relação ao currículo do candidato. Esta modalidade vai permitir abreviar o tempo para formar um doutor qualificado e , com o tempo a necessidade de mestrado tenderá a desaparecer ou se tornar marginal. Vale lembrar que o grau de Mestre em países como Estados Unidos e Canadá não tem qualquer valor para a Academia, embora possam ser bastante considerados em outras atividades profissionais. Vale ressaltar que a qualificação para o doutorado direto sempre será amparada por uma iniciação científica bem feita. A FAPESP continua a atender toda a demanda de bolsas para a iniciação científica, obedecido o critério de mérito do projeto apresentado.
A política de pós-doutoramento também sofreu algumas mudanças. A FAPESP não está mais concedendo bolsas de pós-doutorado no exterior para quem não possui vínculo empregatício no país. Se houver este vínculo, a bolsa plena (1 ano improrrogável) poderá ser concedida em casos muito bem justificados da necessidade de um estágio no exterior. Todo o estímulo voltou-se para o pós-doutorado no país que, como a bolsa de doutorado, permite um a bolsa sanduíche para um estágio no exterior, onde o bolsista irá desenvolver parte da pesquisa relacionada a seu projeto e não um projeto de interesse da instituição que o recebe. O objetivo dessa nova política é a busca de excelência fortalecendo a pesquisa realizada no país.
 
 



ANÁLISE CRÍTICA DA PESQUISA NACIONAL


Prof. Dr. Orlando Ayrton de Toledo

Doutor e Livre Docente em Odontologia pela UNESP
Pesquisador Associado e Professor Emérito da Universidade de Brasília


A relação indissociável entre ensino, pesquisa extensão como função da Universidade (LDB, l996) baseia-se no reconhecimento de que a pesquisa vitaliza o ensino que, por sua vez, é valorizado como produção de conhecimento, reservando, para a extensão, a oportunidade de conhecer a realidade, com seus problemas e indagações.
Não existe ensino de qualidade sem pesquisa. Daí a importância dos programas de iniciação científica que reúnem alunos e professores num processo de valorização da evidência e da indagação científicas, indispensáveis à consciência profissional.
Sabe-se que, aproximadamente, 90% da produção científica brasileira depende das escolas públicas, e que nelas estão apenas 33% das matrículas no ensino superior, constatação suficiente para demonstrar o quanto ainda temos para evoluir nesse setor. O ensino de Odontologia enquadra-se nesse contexto e, obviamente, a pesquisa em Odontologia também.
Poder-se-ia contestar quanto à necessidade de maior evolução da pesquisa em nossa área, argumentando com os dados da Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Pesquisas Odontológicas (SBPqO). Foram selecionadas para a reunião deste ano, entre painéis, Forum Myaki Issáo, Fórum Científico, pesquisas de Ação Coletiva e prêmio Eduard Hatton, 1117 trabalhos, ou sejam, 162 a mais, em relação ao ano de 2001. Perguntaríamos: a quantidade reflete a qualidade da produção nacional? É evidente que ninguém responderia de modo afirmativo. Todos sabemos que, por mais qualificada que seja uma comissão de seleção dos trabalhos apresentados, e por mais bem elaborados que sejam os resumos enviados, seria impossível avaliar o real mérito dos trabalhos propostos.
A avaliação dos painéis durante as reuniões anuais constitui-se num medidor mais confiável, mesmo porque possibilita a obtenção de informações dos autores. Nessa oportunidade é que fica evidente a qualidade inferior de muitos trabalhos que pecam pela metodologia inadequada, pela falta de originalidade, e por equívocos na interpretação dos resultados.
Situação ainda mais ilusória ocorreria se quiséssemos avaliar a qualidade da produção científica pelas apresentações feitas nos inumeráveis congressos, jornadas e encontros que inflacionam o meio odontológico em nosso país.
Restam-nos os periódicos que têm a responsabilidade de selecionar as publicações, a fim de manter o alto nível da matéria divulgada. Dentro do território nacional existem, principalmente, duas dificuldades: a pequena quantidade de periódicos indexados, e a qualidade , no mínimo discutível, de boa parcela dos trabalhos publicados. Malgrado alguns esforços editoriais de elevado mérito, estamos engatinhando ainda em relação aos periódicos na área de Odontologia, dentro da qual apenas duas revistas são indexadas na Medline, graças à periodicidade regular, ao rigor científico e outras condições que as valorizam internacionalmente.
Feitas estas considerações, e levando em conta que muitos investigadores brasileiros têm conseguido publicar seus trabalhos em periódicos estrangeiros de boa qualidade, podemos concluir que nosso país conseguiu, apesar de tudo o que foi dito, destacar-se na pesquisa em Odontologia. Esse destaque não pode, mais uma vez, ser medido pela quantidade de resumos enviados para as reuniões da International Association for Dental Research (IADR), mas sim pela qualidade da maioria dos trabalhos apresentados, e que colocam o Brasil entre os países que mais têm contribuído para o sucesso dessas reuniões.
A comunidade científica internacional, até onde é possível fazer-se uma avaliação, reconhece a contribuição brasileira para a produção do conhecimento através da pesquisa em Odontologia. A que se deve o crescimento da pesquisa em nosso país? A nosso ver, algumas causas parecem ser as mais decisivas. Entre elas, o grande número de cursos de Odontologia que foram criados, e a exigência de titulação e de qualificação do corpo docente, inclusive em clima de competição.
Outra causa importante situa-se no esforço de inúmeros mestres e pesquisadores que, cientes da indissolubilidade entre ensino e pesquisa, procuram estimular docentes e discentes na investigação científica, apesar das dificuldades sobejamente conhecidas. Entre estes últimos encontram-se os fundadores e os continuadores da SBPqO e, graças a eles podemos, com absoluta certeza, visualizar uma perspectiva de crescente sucesso brasileiro na pesquisa em Odontologia.
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